sexta-feira, 17 de março de 2017

O bom, o velho e o novo D&D

Olá pessoas!
Hoje o assunto será polêmico (ou não). É natural, quando estamos lidando com algo que é mundialmente conhecido, que o assunto atraia a atenção de pessoas que defendem aquilo que gostam com unhas e dentes, muitas vezes ignorando o conteúdo apresentado. Este é um hábito mais comum do que você possa imaginar no nosso hobby, e isso para não falar da famosa guerra de edições onde, anos após ano, pessoas gastam energia e saliva (e muitas vezes as pontas dos dedos) discutindo qual é a melhor edição do seu RPG favorito. Então, caro leitor, caso você se encaixe numa das categorias acima apresentadas (e descobriremos isso como possíveis comentários inflamados), eu abro dizendo as seguintes palavras: eu não curto D&D.

Okay, polêmica apresentada, agora vamos as explicações. Meu histórico com D&D teve seus altos e baixos. Para quem não sabe, eu fui apresentado ao hobby através do GURPS 3ª Edição e 3D&T (aquele da capa vermelha), dando para imaginar o meu fascínio e prazer, como um aficionado por fantasias, quando tive a oportunidade de conhecer o D&D através de sua 3ª Edição. Sim, eu conheci primeiro a 3ª Edição do mais famoso e jogado RPG do mundo, e só fui apresentado ao AD&D quando adulto (culpa do meu amigo Leishmaniose e sua campanha de Ravenloft). Na época, meu eu adolescente viajava nas mais incríveis e estapafúrdias aventuras que pudesse imaginar, narrando para os meus amigos jogos atrás de jogos usando aquele livro maravilhoso. Sinceramente não lembro de ter jogado a 3ª Edição, só narrado, mas deve ter acontecido em um momento ou outro. O D&D me proporcionou momentos únicos e fantásticos, e aquela foi uma época feliz. Então veio a época da famigerada Edição 3.5, a qual nunca tive dinheiro ou motivação para comprar. Lembro também que, quanto mais jogávamos, mais discussões sobre regras havia na mesa, ao ponto de que jogar D&D não estava mais sendo tão divertido quanto era antes. Eu então conheci o Vampiro a Máscara, e o D&D foi deixado de lado.


Eu voltei a narrar D&D indiretamente quando conheci o BESM d20. Foi nessa época que peguei um ódio mortal com o sistema, durante uma campanha onde eu estava narrando a 4ª Edição. Foi a partir deste momento que eu não parei mais de testar regras e sistemas experimentais, onde meu grupo atual sofreu bastante com isso (foi mal galera). Eu estava insatisfeito com os sistemas que tinha no mercado e não conhecia nada além do “feião com arroz” (D&D, 3D&T, GURPS e Storyteller). E justamente por não conhecer nada além deles, eu não tinha noção do que me desagradava no D&D naquela época. Foi só bem mais tarde, já em 2014, quando comecei a estudar game designer de sistemas, que entendi os fatores do meu desgosto. Nessa época, inclusive, foi quando eu conheci e joguei o D&D 5ª Edição (até tentei narrar uma campanha sobre celtas, mas morreu na terceira sessão).

O fato é: D&D não é para mim como narrador. A medida em que conheci e pude avaliar cada uma de suas edições, cheguei a esta conclusão. D&D é um RPG com foco gamista, onde maximizar a sua ficha é essencial para sobreviver aos desafios apresentados (o que se estimula a criação de combos e a procura de brechas nas regras para criar combos ainda mais sensacionais), onde se evolui matando monstros e recolhendo tesouros (simplificando, ele recompensa o jogador por “pilhar, matar e destruir”), onde “masmorras” são o grande desafio do jogo (o que exige um preparo adicional anterior a cada sessão, sob o risco de gerar situações frustrantes na mesa, seja para o narrador ou para os jogadores), e onde o combate é tão focado que ele ofusca todo o resto. Não que tudo isso seja ruim, muitas pessoas se divertem com isso, e isso é o que importa. Eu mesmo me divirto bastante, mas vou chegar lá.


Sobre o combate em si do D&D, analisando seu game designer friamente, caso você leia os livros de D&D verá que eles possuem um capítulo inteiro apenas para tratar do combate e suas nuances, e havendo, quando muito, alguns parágrafos sobre regras voltadas para interações sociais e jornadas (viajar chega a ser um pouco melhor explorado, mas só um pouco). Isso é no mínimo curioso, principalmente quando a 5ª Edição diz ter como pilares justamente estes três elementos – combate, aventurar-se pelo mundo e interação social – mas focando visivelmente apenas um deles. Seria este um problema de designer, onde não se alcançou a melhor abordagem para todos os pilares? Ou apenas uma “jogada de marketing” para dizer que o sistema faz tudo isso, quando não o faz? (a menos, é claro, que você use suas regras caseiras para incrementar o jogo do jeito que você gosta)

Mas voltando ao assunto. Jogos assim não me atraem como narrador, mas o mesmo não pode ser dito quando eu sou o jogador. Eu curto muito jogar D&D. Eu tenho um carinho especial pela 4ª Edição e seu sistema de combate tático, onde lembro até hoje de batalhas únicas e empolgantes que tive. E a 5ª Edição não fica de lado, com seu sistema visivelmente melhorado e trazendo elementos interessantes de outras edições (e até de outros RPG). Alguns dos meus jogos favoritos nos últimos anos foi jogando a 5ª Edição. O próprio AD&D me trouxe experiências únicas e empolgantes, mesmo não sendo dos meus jogos favoritos (tenho problema com aquelas jogadas diferentes... É, eu não sou fã dos sistemas “old school”). Já da 3.X eu quero distância mesmo (Eita! Polêmica! Heresia!).


E esse, pessoas, é o meu ponto com este texto. D&D é o maior e mais famoso RPG do mundo, e ele serviu de inspiração para milhares de outros jogos ainda melhores que ele. E, pessoalmente, eu não o curto. Mas não curto narrar nele. Seu game designer peca em alguns elementos essenciais e não traz as ferramentas que eu desejaria, como narrador, ter a mão para criar minhas sessões. E foi isso que me deixou puto com ele durante anos, mesmo sem entender bem o motivo, até passar a jogar mais e entender porque meus jogadores sempre se divertiram tanto o jogando. Jogar D&D é ótimo! Ver seu personagem evoluir e crescer dentro da história é sensacional. Ganhar aquele poder ou habilidade nova é foda e nosso amigo D&D faz isso muito bem (mesmo que em níveis mais altos a coisa tende a se desequilibrar). E esta é a minha opinião hoje sobre o bom, o velho e o novo D&D.

Até and Bye...

3 comentários:

  1. Eu compartilho do "odjio" e do amor a esse saudoso sistema. Mas hoje, como narrador, nunca voltaria a narra-lo com você. Ele demanda um tempo de preparação e conhecimento do sistema muito aprofundado para meu tempo livre e saco de fazer. Muito bom artigo, mas senti falta de explicar melhor o que você não gosta para narrar nele.

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    1. Olá!
      Grande Joka! Então, acho que não me fiz claro, mas vamos lá. O que eu não curto nele para narrar: a necessidade por personagens otimizados, a recompensa limitada e presa a um padrão antiquado, a necessidade de um tempo de preparo de sessão muito longo para criar algo interessante e equilibrado (falta regra pra otimizar isso, como na hora de ajudar a criar combates, que é o foco do sistema), e, para a 5ed em específico, a falta de regras que sustentem os outros dois pilares (interação social e jornadas). Sacou?

      Até and Bye...

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    2. Hummm. Então compartilhamos da mesma sensação. O engraçado é que o sistema em que isso literalmente "acabou" foi no 13º era, com sua tabelinha de criação de monstros e encontros simples e ao mesmo tempo, sofisticada. Vlw.

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